quarta-feira, 24 de agosto de 2011

JAMBOS E HOMENS (OU ROGAI POR NÓS, FODIDOS E SÓS!)

No alto verão (entre dezembro e março) os frondosos jambeiros do Aterro Flamengo deixam-se derramar, deixam-se eclodir, deixam-se sangrar. Os jambos vermelhos despencam das árvores, como se cometessem suicídio em massa – e se não morrem no impacto com o solo, sucumbem pisoteados por caminhantes apressados e ciclistas idem – que os transformam em maçaroca  pastosa e vermelha e nojenta, em contraste gritante com o negro do asfalto quente.
Necessário informar: nem todos os jambos vermelhos despencam das árvores, como se cometessem suicídio em massa. Nessa época de safra pródiga em frutos suculentos, gentes da região e d´alhures costumam colhê-los diretamente do pé. Minutos depois, voltam para casa com cestos e sacolas entupidos de jambos vermelhos sobre as corcovas.
(É bonito de se ver: no coração da metrópole, urbanoides inveterados agem como se num ambiente rural vivessem e, sem intermediários, sem uso de dinheiros, retiram diretamente da fonte frutos que, mais tarde, se transformarão em doces, compotas, geleias, ou serão comidos in natura.)
Há outro tipo de colheita menos sazonal,  e mais circunstancial, que ocorre no Aterro do Flamengo  (acontece sempre que a região, um dos lugares mais bonitos do planeta Terra, precisa ser maquiada para inglês e estrangeiros em geral verem): a de mendigos e de moradores de rua.
Ao contrário dos jambos vermelhos, os mendigos e moradores de rua não despencam das árvores. Ao contrário dos jambos vermelhos, nunca são tão sazonais. Parecem brotar do chão o tempo inteiro, seja na calada da  noite, seja sob  sol escaldante. Meio como se surgissem inesperadamente do nada – e, ao vê-los à distância, não temos, nós, que temos casa, comida e roupa lavada, a mais remota ideia de onde aquelas criaturas vieram e para onde aquelas criaturas irão.
Também não têm época certa para brotarem: brotam diuturnamente, de domingo a domingo, de verão a verão, de dezembro a dezembro, de sempre a sempre.
A colheita de mendigos e moradores de rua não segue os ditames da mãe-natureza. São de outra ordem. Obedecem a critérios mais, digamos, mundanos. Na maior parte do tempo, não há ninguém que os colha, ou os recolha. (No máximo, nos penalizamos e nos compadecemos quando os vemos, e é só; drogados por endorfinas diversas que nos arrebatam, apertamos o passo, acionamos o sempre útil botão do foda-se  - e   seguimos nossas vidas, lépidos e fagueiros, até que, inesperadamente, morramos de susto, bala ou vício).
Essas criaturas ordinárias que percorrem os quatro cantos do Rio de Janeiro, em vã tentativa de achar um lugar pra chamar de seu, parecem mais ratos que homens (e, pensando bem, qual é mesmo a diferença entre o homem e o rato? Ah, sim: jogue os dois na parede: o que guinchar é o homem).
Vivem ao deus-dará, ao léu, podem morrer neste minuto que o leitor ora me lê; ou daqui a dois dias; ou daqui a dois meses;  who cares? ou, alguns, até mesmo já morreram (e pensamos, o que de alguma maneira nos conforta, que, em vez de mortos, tenham mesmo é um sono de pedra, ou, pior, tenham  ´a vida que pediu a Deus´  - como ouvi de simpático senhor que desfila diariamente pelo Aterro do Flamengo com seu adônico dog alemão chamado Uriel).
Há cerca de um mês (a partir da limpeza generalizada e superficial que se fez em todas as cercanias do Aterro do Flamengo,  por conta da realização do sorteio dos países da Copa do Mundo de 2014, na Marina da Glória), as colheitas de mendigos e de moradores de rua recrudesceu: tornou-se rotina diária. Invariavelmente, lá pelas 10 da manhã, dois furgões da prefeitura se encarregam da faxina.
Ao final da colheita matinal – que vai do Monumento a Estácio de Sá aos quintais do Museu de Arte Moderna – os furgões se abarrotam. Ás vezes consigo ver os seres humanos (re)colhidos através do vidro das janelas dos grandes carros que passam ao meu lado, e percebo, ou quero crer que percebo: ostentam certo ar melancólico, mas, talvez, alvissareiro. Como se cressem:  magicamente, a vida de merda que levam deixará de existir, e, em algum lugar do Rio de Janeiro, poderão ser felizes para todo o sempre.
Há quem, coberto de razão, não acredite nesse final feliz de novela de tevê, e tente impedir que alguns desses mendigos e moradores de rua sejam levados por esses furgões-que-os-levarão-sabe-se-lá-pra-que-lugar-do-inferno. Dia desses, dois desses furgões pararam a pouca distância de mim: dois homens fortes desceram dos carros, e esses dois homens fortes colheram um morador de rua/mendigo que se deitava ao lado da via. Acordado pelos dois homens fortes, espreguiçou-se, abriu os olhos lentamente, olhou em volta com um olhar de peixe (super)morto; por fim levantou, e se deixou enfiar num dos dois furgões.
De repente,  surgiu do meio do nada homem esbaforido que começou a correr atrás dos dois furgões, aos berros: - Pare, pelo amor de Deus. Pare! Correu tanto e gritou tanto, que os dois furgões em retirada e o homem esbaforido enfim se encontraram. Ouviu-se  então o seguinte diálogo:
Homem esbaforido: - Esse home num é vagabundo não, doutô. É trabaiadô, me ajuda ali naquela barraca de praia. Só aproveitou a forguinha que lhe dei para tirar soneca...
Fortão-de-um-furgões: - Trabalhador que nada! Com esse bafo de cachaça, ele num é trabalhador nem na casa do caralho!!!!
Homem-esbaforido:  - É sim. Ele trabaia comigo. Ele num é vagabundo não...
Fortão-de-um-dos-furgões: - E por que ele não falou nada quando a gente pegou ele?
Homem-esbaforido:  - Ele é mudim, douto, mudim. Se não foi por causa deu, o doutô podia levá ele pro inferno que ele nunca ia falá nadinha, nadinha...
(E assim se salvou o mudinho das garras dos dois-fortões dos dois-furgões)
A colheita prossegue dia sim, outro também, e dia sim, outro também, presencio essa colheita macabra.  Hoje pela manhã, reencontrei  os mesmos dois-furgões de sempre, comandados pelos dois-fortões de sempre. Os carros estavam superlotados, parecia ser quase o fim da colheita diária.  Ainda assim, os dois-fortões dos furgões, olhos de lince, avistaram homem gordo e negro; vestia roupas imundas; sentava-se num daqueles bancos do quintal do Museu de Arte Moderna; apreciava a paisagem da Baía de Guanabara; alheio, parecia, a tudo e a todos.  
Os dois fortões-dos-furgões, ambos negros retintos, cercaram o homem-também-negro-retinto que apreciava a paisagem e  berraram: - E aí, negão, vai com a gente hoje ou não vai? Vamos lá, negão, deixa de vagabundagem! Vem com a gente, negão! Você não vai se arrepender, negão!
O negão perseguido não pensou muito - se pensasse muito, preferiria qualquer furgão à (não) vida que vivia fora daquela bela paisagem da baía de Guanabara – e escafedeu-se por entre as belas palmeiras imperiais que enfeitam o lugar.
Um dos fortões-dos-furgões vociferou: - Deixa de ser otário, negão! Vão é te matar qualquer hora dessas, negão! Você vai se foder, negão!
O negão-em-fuga, suando em bicas, passou por mim como uma flecha (gorda), e berrou: - Deus é mais, Deus é mais!
Que seja, caro leitor, que seja!
    

 
 

2 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. Valeu negão.
    espinhosa, pra mim, a crônica -o conto mais-, vejo q v.mercê manda bem...
    https://bitly.com/dalata1

    ResponderExcluir