sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

A TENTATIVA VÃ DE ARRANCAR MACISTE DAS GARRAS DA MORTE

Prólogo: Avenida Joana Angélica, 23, terceiro andar, Salvador, Bahia. 1969. Noite. Três mulheres choram desabridamente. A bordo de bobs nos cabelos, camisolões folgados que escondem excessos calipígios, e certo pathos rodriguiano, assistem,  contritamente, a emocionante capítulo da novela Rosa Rebelde,  exibida pela TV Globo. Parecem, de tão imersas nessa trama rocambolesca imaginada pela dupla Glória Magadan/Janete Clair, prantear a morte do pai querido, do filho querido, do amante querido, da cachorrinha querida.

De repente, vinda da cozinha onde diuturnamente preparava almoços e jantares em que pontificavam sopas feitas a partir de gordos nacos de carne, entra em cena velha e inesquecível senhora. Apesar dos mais de 70 anos que a contemplam, ostenta cabelos pretos como as asas da graúna (sempre presos em coque), e anda a passos firmes e decididos. Chama-se Ana, ou, como preferíamos, Tia Birri : era madrasta de meu pai, e eu a admirava muitíssimo pela garra com que enfrentou, muito jovem ainda, a viuvez do meu avô paterno, com nada mais nada menos do que nove filhas para criar - três das quais, ainda solteiras, continuam a chorar desabridamente diante do aparelho de tevê em preto e branco.

Tia Birri, voz tonitruante, passa, teatralmente, e propositalmente, entre o apararelho de tevê em preto e branco e as filhas telecarpideiras. De repente, estanca. Diante do pranto coletivo daquelas três mocetonas, vocifera, brada: - Cambada de desocupadas! Vão procurar o que fazer! Estão chorando por quê? Tudo isso é mentira! Deslavada mentira, estão entendendo? Men-ti-ra! 

Apesar da ira de Tia Birri., nada mudava. Todas as noites, Tia Birri vociferava contra a choradeira  generalizada das filhas ainda solteiras. Todas as noites, as filhas ainda solteiras (que acabariam desencalhando anos depois) de Tia Birri telecarpiam  mágoas diante diante de mais um capítulo de Rosa Rebelde.

Vi essa cena muitas vezes. Via tudo com os olhos de adolescente que recém-saíra da uterina casa materna-paterna e fora morar durante um ano com todas essas mulheres de forte inspiração rodriguiana. Via tudo como se fosse peça de teatro hipperrealista (além do cheiro da comida vinda da cozinha, sentia-se no ar o cheiro forte de perfume e talco baratos - hoje,  presumo:  as filhas telecarpideiras de Tia Birri se perfumavam e punham pó de arroz para assitir aos capítulos da telenovela).

Sempre que via essa cena, relembrava outra cena que também demonstrara o quanto o ser humano e o drama - de boa ou má qualidade, pouco importa; drama é drama - formam intrincado ecossistema.  Essa outra cena acontecera alguns anos antes, quando, infante ainda, assistia à matinê dominical no Cine Auditorium, em Jequié-Bahia.

Epicentro dramático Escurinho do cinema. Tarde de domingo. 1965. Talvez 1966. Cheiro forte de suor e chulé,  misturado a sabonete Palmolive, desodorante Van Ess em bastão e brilhantina Glostora. O filme em exibição: Maciste, Gladiador de Esparta, com Mark Forest (mas poderia ser Maciste contra o Sheik, com Ed Fury). Lotação esgotada, e calor insuportável que os  velhos e lentos ventiladores não davam nenhuma conta - e nós suávamos que nem cuscuzes.

Meninos, principalmente meninos, nos esgoelamos a cada aventura vencida pelo herói, e urramos, urramos, e urramos. É como se de cada luta vencida pelo mocinho então de plantão dependesse o futuro de nossas vidas. As meninas, bem, as meninas eram em menor quantidade. Na verdade, as meninas não gostavam muito de filmes de Maciste. Na verdade, as meninas morriam de raiva pelo fato de nós, meninos, pelo menos naquelas gloriosas tardes de domingo, preferirmos os bíceps de aço do herói mítico a elas.

De repente, não mais que de repente, um desses meninos,  que, sob o escurinho do cinema em nada se diferia do resto da manada, dá um tilt, sofre um curto-circuito inesperado, e tudo parece fugir do script de todas as tardes de domingo.  Diante da possibilidade inesperada de o herói Maciste beber o vinho envenenado que o vilão (ou vilã?), traiçoeiramente, tenta enfiar-lhe goela abaixo, certo garoto levanta de cadeira a poucos metros de mim, e explode num piti espetacular que entraria para a posteridade jequieense.

E nós, os meninos e meninas presentes ao Cine Auditorium naquela tarde de domingo, entre pasmos e fascinados, então ouvimos:  - Pelo amor de Deus, Maciste, não beba este vinho! Este vinho está envenendado! En-ve-ne-na-do! Eu não quero que você morra. Eu não quero!

O cinema veio abaixo. Ed Fury (ou Mark Forest?) que se fodesse. Agora o centro das atenções deixava de ser o filme (honra ao mérito, noblesse oblige) e passava a ser esse garoto exaltado que não continha a enoooorme paixão que nutria por Maciste, e que não queria deixá-lo morrer envenenado e que acabou virando o herói dessa hoje longínqua  tarde de domingo..

Epílogo: nos meses e anos seguintes, na pacata Jequié-Bahia, aquele garoto exaltado e destemido daquela matinê dominical, a bordo de jeito, digamos, delicado de ser, e de jeito, digamos, algo fora dos padrões masculinos então em vigor,  se tranformou em centro de olhares e de atenções. Resultado: por conta daquela cena inesquecível que protagonizou, passou a ser chamado carinhosamente de Maciste. Ele talvez preferisse ser chamado de Mirela Márcia ou Renata Cleópatra, ou, como alguns chegaram a insinuar, de Macista.

Mas o tempo pasou,  e Maciste aceitou, sem pejo, a alcunha com que a cidade o consagrou.

Esteja onde estiver, vivo ou morto, que Deus, ou quem de direito, o tenha e o proteja, caro Maciste-de-Jequié-Bahia!

10 comentários:

  1. Adorei Rogerio. Nada a dizer além disto: adorei. Beijos

    ResponderExcluir
  2. Mais uma deliciosa crônica... Bj.

    ResponderExcluir
  3. Que beleza Rogério! Amei!
    Diana Tourinho

    ResponderExcluir
  4. amei, rogério!!! vai para a minha lista de prediletas!
    bjos

    ResponderExcluir
  5. Pela intensidade da reação "macistiana", diria que se tratava de Waly, mas naquele ano ele já não estava pelas bandas de Jequié, não é isso? rsrs
    E engraçado como aquela região da Joana Angélica - Mouraria, Palma, Rua do Paraíso - era pródiga dessas senhoras cheirando a talco, que hoje quase nao se vêem mais.

    ResponderExcluir
  6. De alguma forma, elas estão por aí. Talvez a gente tenha menos tempo pra observar as pessoas. Sempre bom ler seus textos, Rogério. Ontem assisti Dzi Croquettes e lembrei da gente. Dos tempos duros, mas criativos. Senti saudade de tanta gente, que como seu Maciste, não sei por anda.

    ResponderExcluir
  7. Muito bom Rogério, deu para imaginar a cena...

    bjos
    Clau

    ResponderExcluir
  8. hahaha. adorei. adorei tb o "ledo, e nagle, engano" do e-mail. abração

    ResponderExcluir
  9. Belo texto, que me faz recordar da infancia em Vitória da Conquista, Bahia. Também presenciei minha tia enviar uma carta à Aracy Balabanian, contando-lhe que sua personagem numa novela estava sendo traída pelo marido e pela melhor amiga.

    ResponderExcluir
  10. Socorro, Vó Help! Que ótimo essa "interlocução" via O Lobo no Ar... Esse devia ser o nome do meu blog, não? rs

    ResponderExcluir